Quinta do Barruncho, Granja da Paradela
Vitor Manuel Adrião
Granja da Paradela - A Barruncha Maltês
Entre a Póvoa de Sto. Adrião e Odivelas, qual "belveder" defronte ao Olival
Basto, encontra-se a quinta hoje conhecida pelo nome de Quinta do Barruncho,
outrora, Quinta da Granja (da Paradela) ou Quinta de Nª. Sª. do Rosário, a quem
tinha sido dedicada a sua capela.
Invocava-se também, aí, o Senhor do Bom Princípio.
A casa, construída por volta do ano 1700, teria pertencido a uma Comendadoria da
Ordem de Malta, o que explica o tamanho imponente da capela.
De facto, há nas cercanias desta quinta um portão barroco armoriado, com a Cruz
de Malta, datado de 1638. Seria a entrada para a granja maltês de que ainda
existe o primitivo palácio, semi-arruinado, erecto sobre o Morro da Codiceira.
Essa granja, antiga coutada de caça de D. Dinis, segundo rezam as crónicas, era
também afamada pela sua abundância de trigo e fruta. Por esta Comenda maltês,
cujo domínio era reputado como um dos primeiros da região de Loures (hoje
Concelho de Odivelas), passaram proeminentes figuras nobiliárquicas da História
de Portugal. Vimos, por exemplo, no brasão esquartelado, exposto na referida
entrada, as Armas dos Coelhos e dos Carvalhos, decerto por terem pertencido à
Ordem de Malta vários membros dessas famílias.
O primeiro nome dessa Instituição religiosa e militar foi Ordem de São João de
Jerusalém, também conhecida por Ordem dos Hospitalários ou de Rodes. Após a sua
transferência para a ilha de Malta, herdou desta o nome que se universalizou.
Oficializada em Jerusalém no séc. XII, todavia a Ordem de São João tem origem em
San Juan de la Peña, nas Astúrias, donde se transferiu para o Médio-Oriente
durante as primeiras Cruzadas, acompanhando a Ordem dos Templários. A sua Cruz,
que era originalmente simples, ornada ao centro por uma Rosa, evoluíu com o
tempo e, por meados do séc. XIII, assumiu a forma patada de oito pontas.
Já em 1122, a Ordem de Malta ocupava o Mosteiro de Leça do Balio, a NE. do
Porto, tendo sido D. Afonso Pires Farinha, valido de D. Afonso III, o primeiro a
usar o título de prior, em Portugal. Em 1350 a cabeça da Ordem foi estabelecida
no Crato.
Voltando à Quinta da Azinhaga do Barruncho - este último termo derivado do
medieval Barragão, "companheiro", talvez alusivo a alguém com esse nome e
pertencente à Companhia maltês sediada no lugar -, faz dela registo uma carta
datada de 12 de Maio de 1758, em resposta ao célebre inquérito do Padre Luís
Cardoso, assinalando que "na Quinta da Granja, onde vive a viúva de António van
Praet, existe uma magnífica capela dedicada ao Senhor do Bom Princípio,
extremamente bem feita e bem decorada de imagens piedosas, muito particularmente
a do Senhor que está sobre o altar-mor... obra muito singular."
A família Praet, que habitou este palácio, provém do condado de Flandres, onde
teve cargos principais, nomeadamente, os de burgomestres e vereadores das
cidades de Bruges e Dermonde. Quanto a António van Praet, filho de Jácome van
Praet e de D. Micaela da Silva, foi homem de negócio, o mais rico particular de
Lisboa no seu tempo, tendo palácio na cidade e grande quinta na Granja da
Paradela. Mereceu grande estimação do rei D. João V e serviu o Tribunal do Santo
Ofício no cargo de familiar, tendo-se recebido com D. Antónia Mariana Teresa
Salgado, filha herdeira de Gaspar Salgado, cavaleiro da Ordem de Cristo e
secretário da Junta dos Três Estados, e de sua mulher D. Águeda Maria Josefa
Leopoldina Cardoso de Vargas, de cujo matrimónio proveio a geração de apelido
van Praet, usado com ou sem preposição.
As Armas usadas, eram: de prata, com três folhas de golfão de verde. Timbre: uma
folha de escudo.
Muitíssimo mais tarde, em 1905, passando pela Póvoa de Santo Adrião, aquando do
seu périplo de "Benfica ao Correio-Mor", Gabriel Pereira recorda-se de aí ter
visto "algumas boas construções antigas, agora em ruínas". Tal era,
provavelmente, nessa altura, o estado em que se encontrava a Quinta do Barruncho
que chegou a ser depósito de cereais antes de ter sido esplendidamente
restaurada há alguns anos, de 1957 a 1959, por João Maria Bravo, o qual a cedeu,
temporariamente, ao Consulado do Luxemburgo.
A fachada da construção principal, evocando um tanto o barroco dos países
nórdicos, é de uma grande originalidade. Tendo por centro a capela, é
sobrepujada por uma larga empena trabalhada, no cimo da qual fica uma cruz com
um campanário de cada lado. Ao centro da fachada e sobre o janelão central, o
brasão dos van Praet.
No interior, a capela guarda ainda o famoso Senhor do Bom Princípio, magnífico
crucifixo que remonta à construção do edifício. A arquitectura deste templo
majestoso, um pouco austera, foi enriquecida mais tarde, por volta de 1740, com
uma decoração de azulejos azuis e brancos, de excelente qualidade. Este silhar,
primitivamente cercado por uma bordadura recortada, pode atribuir-se à oficina
de Bartolomeu Antunes.
Na nave, à esquerda, pode identificar-se a hagiografia de São Maximino pela
legenda "Maximino, eu te baptizo", escrita por debaixo da cena que representa o
Cristo baptizando o Santo. À direita, é ilustrada a célebre Batalha de Lepanto,
onde, em 1571, as forças cristãs, comandadas por D. João de Áustria, esmagaram a
frota otomana, ajudadas, entre outros, pelos cavaleiros da Ordem de Malta.
Vitória prodigiosa que veio dar lugar a uma grande devoção por Nossa Senhora do
Rosário, a quem é dedicada a capela. Por isso, neste combate naval se podem
distinguir, nos pavilhões içados ao alto de soberbos mastros, as imagens de
Cristo e da Senhora do Rosário, lado a lado com o Crescente turco.
Todo o resto da habitação foi profundamente remodelado quando dos trabalhos de
restauro. Algumas salas conservam ainda o seu tecto em masseira, cujas pinturas
puderam ser recuperadas. Sobre um dos tectos mais belos, o espaço é enquadrado
por um conjunto de caixotões e cantoneiras, no centro dos quais, além dos
monogramas da Virgem e do Cristo, se vêem saborosas carrancas e molduras,
interpretadas num tom jubiloso que não deixa de evocar um tanto a fachada.
Por entre os móveis e os quadros, escolhidos cuidadosamente, pode admirar-se uma
pequena tela do séc. XVIII, apaixonante caricatura da morte, onde pode ver-se
num quarto luxuoso - coberto por um tecto em masseira "rocaille" - um homem que
agoniza e à volta do qual se comprimem médicos e servidores, herdeiros e amigos,
anjos e diabos...
No terraço, há a apreciar uma interessante fonte barroca frente a uma mesa do
mesmo estilo. No jardim, sem dúvida que o seu "ex-libris" é a segunda monumental
fonte barroca, encostada ao muro, constituída por um engenhoso empilhamento de
pedras esculpidas e rochedos em equilíbrio, que formam as oito quedas de água de
uma cascata, caindo dentro de espaçosa bacia redonda. Há ainda pequenas estátuas
de meninos fáunicos, belos tanques, silhares de azulejos (vendo-se num o
pormenor curioso e raro de um dentista operando um paciente segundo o costume do
séc. XVIII) e uma pequena imagem em terracota de Sto. António, possivelmente dos
inícios da capela. Há muita harmonia em todo este espaço palaciano, autêntico
oásis face ao meio circundante (exterior).
Os tanques e fontes desta Quinta, assim como de toda a região cincumvizinha, são
alimentados pela água canalizada de um antigo aqueduto romano, descendo o Casal
do Monte. Aliás cremos que os vestígios mais ricos da Época Romana situam-se
exactamente aqui. Vêem-se restos de uma ponte, um arco completo de aqueduto e
uma mina alpendrada com escadaria para a entrada, dividindo-se o seu interior em
várias galerias, canalizando a água pura do Monte. Registe-se ainda fragmentos
da via pública, igualmente desse Período histórico, estando tudo por catalogar.
A Paradela é, pois, paragem obrigatória no roteiro fabuloso do Património
Histórico-Artístico de Odivelas. Vale a pena visitá-la.
Vitor Manuel Adrião
historiador, com diversos trabalhos sobre a Região Saloia.
- "Santo António dos Cavaleiros - História e Tradição"
- "Mitos e Tradições Saloias"
- "Loures e os Templários"
- "Frielas - Memorial Histórico"
- "O Giro do Círio dos Saloios"
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