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Dr.Vitor Manuel Adrião
Conferência Pública Proferida pelo Autor, em 10 de Junho
de 2003,
No Anfiteatro da Antiga Cisterna Subterrânea da Cidadela
Militar
de Cascais, Perante as Autoridades Civis, Militares e
Religiosas,
Além de Vasto Povo, por Ocasião da Chegada do Círio Real dos
Saloios da Virgem do Cabo Espichel aí, e Posterior ida para
a
Paróquia do Santíssimo Nome de Jesus de Odivelas, Sede de
Concelho.
Hoje, Dia de
Portugal, que é dizer do início da Portugalidade no Mundo
como País soberano cerca de 500 anos à dianteira dos demais
europeus estruturados em feudos cujos duques e condes
isentavam-se dum poder central, é pois neste velhinho
rectângulo Pátrio que irrompe a Diáspora da Fé, do Saber e
das Armas assinaladas inicialmente a todas as parte da
Europa, e depois do Mundo!... Ser Português é uma maneira de
estar, de sentir, pensar e ser... sempre duvidoso das suas
capacidades reais de realizar e, anacronicamente, sempre
ansioso de realizar.
Num aspecto particular regista-se isso mesmo no Saloio,
etnia arábica vinda de Saleh, nas fronteiras do Egipto, no
finais do século VIII para estas bandas ocidentais da Europa
e miscenizando-se aos cristãos submetidos ao jugo Árabe
ocupante, pelo que em breve eles mesmo se tornariam
moçárabes, desde logo mal vistos pelos de puro sangue Árabe,
não corrompido pela mistura ao de outras etnias que
consideravam inferiores, pelo que foram remetidos ao
desprezo das fainas mais humildes, contudo imprescindíveis,
do cultivo dos campos arredores das grandes urbes
estremenhas, particularmente de Lisboa. De maneira que ao
natural de Saleh deverá depois a sua origem o "homem do
campo", o Saloio.
Devo informar que o moçárabe,
nome aliás escrito na forma plural, aparece pela primeira
vez no foral que Afonso VI (1101) concedeu à cidade de
Toledo, onde o monarca refere os súbditos "quos vulgo
mozarabes vocitant", de onde se infere que o nome carecia de
uso nas instituições culturais e jurídicas.1 Essencialmente
o moçárabe é o "como que árabe", ou seja, o cristão inserido
e subordi- nado à estrutura social muçulmana, excepto na
religião, ainda que a Cruz e o Crescente em muito se
identifiquem através dele.2
Durante a ocupação muçulmana da Península Ibérica, o Estado
islâmico limitou a propagação judaica e cristã a guetos ou
lugares de delimitação fixa. Assim, a paróquia é o gueto dos
cristãos, como a alfama ou aljama é o asilo ou gueto dos
judeus (e após a Reconquista judaico-cristã criar-se-ia,
imitando o modelo islâmico, o gueto da moirama, isto é, a
mouraria), com a diferença de que a paróquia - nome gótico -
se designa, no direito muçulmano, por al-kenîssah, ou
kulicia. Al-kenîssah não é apenas um templo, nem uma capela,
nem uma ermida no monte. É, mesmo na forma evolutiva da
palavra (kenîssah, caniça, caneça), uma cabeça de assembleia
cristã: a sede paroquial.3
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1)
Alexandre Herculano, Portugalia Monumenta Historica,
Scriptores, 84.
2) Vitor Manuel Adrião, Rotas de Loures. Edição do Autor
subsidiada pelo Município, Loures, 1994.
3) Pinharanda Gomes, A Filosofia Arábigo-Portuguesa.
Guimarães Editores, Lisboa, 1991.
O desenvolvimento da rede paroquial durante a Reconquista
cristã alerta para a função da freguesia nas acções da
conquista e da consolidação do domínio das caneças contra as
assembleias mesquitais. Algumas dessas caneças feneceram,
ocupadas pela moirama e logo transformadas em mesquitas e
mesquitelas, enquanto outras vingaram durante os séculos de
ocupação. Caneça, ou caneças, é uma igreja paroquial onde
ocorrem semanalmente as populações circunvizinhas, as
populações desse gueto cristão tornado mais importante em
regime de hábito disperso, como sucedia em toda a região da
Estremadura, mormente nas terras saloias de Loures, Mafra,
Sintra e CASCAIS, as quais se estendiam etnologicamente, por
um lado, até Torres Vedras e inclusive registando-se
vestígios da Cultura Saloia em Óbidos, e por outro lado,
indo até à zona Sadina de Setúbal, Arrábida, Sesimbra e
ESPICHEL.
Dentro da caneça o moçárabe é cidadão de pleno direito,
freguês, felgrês, feligrês ou filius Ecclesia, "filho da
Igreja" (donde a Freguesia ser extensão da paróquia, tal
qual, numa sociedade tradicional, o Poder Temporal é
justificado e confirmado pela Autoridade Espiritual), mesmo
que a mulher sirva de lavadeira ao Califa.
O modelo jurídico islâmico, por sua perfeição aristotélica,
serviria de inspiração ao Senado latino dos cristãos,
reformulado por D. João I mas cuja origem recuará a D.
Afonso II. O Senado islâmico era a Shari'a, o tribunal no
qual o Cadi ou Juiz agia como representante do Califa. Por
via de regra, era um muçulmano do sexo masculino, de bom
carácter e comprovado saber. Embora a sua jurisdição
abrangesse ao mesmo tempo a lei civil e a lei penal, na
prática o Estado encarregava-se da maior parte da última.
Ora era exactamente isto que o Senado latino fazia: mantinha
a lei civil e só aplicava a penal após ordens expressas do
Estado vigente.4
Com tudo isto, premissas
indispensáveis ao entendimento da génese do Círio dos
Saloios à Virgem de Mu ou Espichel, tema que aqui nos traz,
pretendo agora afirmar que, com a maior das possibilidades,
tal Círio Votivo ou Giro seria já cardápio do Cultuísmo do
Saloio moçárabe ao tempo da Ocupação árabe, cuja lei era
permissiva e não repressiva da Fé cristã submetida, desde
que a mesma não se convertesse em Política anti-estatal
subversiva. Ficar-se pela Fé, respeitava-se; extravasar-se
para a Política, reprimia-se.
Tanto assim é que não raros autores de obras consignadas a
leitura obrigatória na área Historiográfica, como Frei
Bernardo de Brito (in Monarquia Lusitana, parte I, livro IV)
e Manuel de Faria e Sousa (in Europa Portuguesa, cap. I, IX),
afirmam que a devoção a Nossa Senhora da Pedra de MUA, de MU
ou do Cabo é remotíssima e muitíssimo anterior a 1414, e
mesmo a 1215 onde se notícia culto à Mãe Divina no terreiro
do Cabo Espichel. 1414 é o ano em que D. João I doou ao
Condestável do Reino, D. Nuno Álvares Pereira, terrenos no
sítio do Cabo Espichel para que ele, devoto confesso de
Nossa Senhora do Carmelo, desse ao povo Casa condigna à
devoção da Virgem, sendo edificada em 1490 a Ermida de Santa
Maria da Pedra de Mua, vulgo Ermida da Memória, humilde
resto de formato Kaábico do antigo espaço Carmelita de que
ainda sobejam as ruínas ao lado da actual Catedral. A
pequena Ermida, mais sendo Oratório de Ermitão ou homem do
Deserto, como Santo Antão que lá está em azulejo fazendo o
sinal de silêncio, foi restaurada em 1758, data das suas
inscrições azulejares, as quais indiciam que foi aí mesmo
nesse "próprio lugar onde a milagrosa imagem de Nossa
Senhora do Cabo se manifestou aos venturosos velhos de
Caparica e Alcabideche e em que primeiro foi venerada",
segundo Frei Bernardo de Brito.
O Culto estremenho dos Celtas à Grande Deusa-Mãe ir-se-á
prolongar ao período Moçárabe já na forma hagiográfica da
Mãe Divina, e fixar definitivamente, por via do Santo
Condestável, D. Fr. Nuno Álvares de Santa Maria, no Culto
Votivo Popular à Virgem Santíssima, esta mesma Santa Maria
do Cabo, por influência notória da Ordem do Carmelo,
associando Espichel a novel Carmelo Lusitano.
Foi grande a devoção popular ao Santo Condestável,
devotadíssimo a Santa Maria do Cabo, a ponto da devoção
feminil saloia de lhe ter consagrado várias danças e
cantares mouriscos, chacóinas ou chaconas, de natureza
apologética abertamente matricial, inclusive atribuindo-lhe
o "poder de ressuscitar os mortos", o que vai bem com o
Culto da Deusa-Mãe agora na figura do "Cavaleiro Santo", do
"Galaaz do Carmelo", no dizer de Pinharanda Gomes, e tanto
mais que a Iniciação Cavaleiresca é sinónima de Iniciação
Mariana. Convém, sim, não confundir Cavalaria Espiritual com
Cavalaria Militar. A propósito da "Chacona do Condestável",
medieval, ela foi
_________
4) Augusto
Vieira da Silva, Dispersos, volume I. Lisboa, 1968.
recolhida e integrada no reportório do Rancho Folclórico e
Etnográfico "Os Frieleiros", que gentilmente cedeu-ma pela
mão do seu Presidente na altura, sr. José Henriqueta.5 Passo
a descrevê-la:
DANÇA: É somente dançada por mulheres. Tem a sua origem na
Procissão ao Carmo de Lisboa, organizada em primeira mão
pelo próprio D. Nuno Álvares Pereira. Esta dança, tal como
na Judenga, eram obrigatórias a sua comparência, e em caso
de falta seriam multados.
MÚSICA: É baseada em quatro notas, que procedem por graus
unidos, sobre os quais se fazem muitas consonâncias e coplas
sempre com a mesma volta.
LETRA (ortografia semi-medieval):
A CHACONA
Do Restelo a Sacavém
Nem ningola nem ninguém
Tem semelho ao Condestabre
Que le prouge e que le preze
Ho fazermos tanto bem.
E BEM E BEM
O rapaz das coberturas
Que mórre, e cahe pra tráz,
Já não vai à sepultura
Que outra vez, vive o rapaz:
E ho Conde le fizo o bem.
E BEM E BEM
Á filha de Joana estés
Que finou por non mamar
Ao do moinho Cubo
Que finou por se afogar
Viventa o Conde também.
E BEM E BEM
O mal daquela alfayata
O gram dor de Lopo Afonso
Nos les chega aos corações
Que o Santo Conde los guarde:
Y todo por fazer bem.
E BEM E BEM
E bem Condestabre Santo
Cobrimos com nosso manto
Com nosso manto de Galés
Defendimentos dos males
E fagamos muito bem.
E BEM E BEM
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5) Vitor
Manuel Adrião, Ode a Loures (Monografia Histórica). Edição
do Pelouro do Turismo da Câmara Municipal de Loures, 1993.
É ainda a Arqueologia a comprovar quão antigo é o Culto à
Grande Deusa-Mãe, independentemente dos nomes que adopte de
acordo com a ciclicidade dos movimentos religiosos
imperantes no tempo de dado espaço histórico, no Cabo
Espichel, outrora conhecido dos cronistas como Promontório
Barbárico, e dos latinos como Capresicum Lugum, isto é, Cabo
de Capris ou da Cabra.6
Com efeito, as lapas do Bugio e do Fumo, ambas muito
dificilmente acessíveis pela alcantilada escarpa costeira,
forneceram dentre outro espólio eneolítico (c. 3000 a.C.),
diversas descobertas surpreendentes: junto à entrada da lapa
do Bugio encontrou-se um esqueleto cujo crânio fitava o mar,
tendo sido intencionalmente desmembrado e os ossos
serrados,7 o que sugere um tipo de ritual funerário Isíaco,
o que aliás indaga Manuel Joaquim Gandra.8 Na outra lapa do
Fumo, mais ossadas humanas intencionalmente serradas, e
cerâmica de fabrico demasiado esmerado, para que se possa
considerar de carácter meramente utilitário, campaniforme,
argárica, com ornatos a cores, datável da Idade do Ferro, e
Medieval, designadamente do Período Muçulmano, também
representado por oitenta quirates (moedas) cunhados em
Silves, que se verificou haverem sido lançados sobre as
sepulturas de presumíveis homens santos (mulâs) venerados
pelo Islão.9 Que terá o mulâ a ver com a mula por que subiu
Nossa Senhora escarpa acima, segundo a lenda? Ou mesmo essa
outra mula em que subiu ao Céu Mahometh? Haverá algum ponto
de encontro entre o Islão sufítico e o Templo cristão, sendo
a Virginis Aeternis, a Marah corânica, o ponto de
intercessão?
A acrescer tudo isso, a existência de diversas pistas de
dinossáurios, com maior realce nas escarpas da enseada da
praia dos Lagosteiros, pretexto para as pegadas deixadas na
Pedra de Mua pela burrinha (mula ou muar) que transportou a
Senhora encosta acima,10 transpondo-se assim o óbvio
geológico para a maior valia da aparição sobrenatural da
Virgem, o que recata à finalidade consagratória desse mais
um finis-terrae ou lugar sagrado. Assim quis o Povo e assim
está muito bem, na sua maneira simples mas pura de pensar e
sentir o Sobrenatural, insensível à discussão científica
esclarecida mas sensível à simplicidade da Fé iluminada por
Graça da Virgem Mãe, a Stella Maris, o que reporta à devoção
ao Divino Espírito Santo, soprando onde quer sobre o Oceano
da Vida, por aqueles homens e mulheres que dados às fainas
do mar caprichoso a Ele e a Ela tantas vezes recorrem nas
horas de aflição, ou esses camponeses dependentes, também
eles, das boas colheitas que os caprichos da Mãe-Natureza
lhes concede. São motivos mais que suficientes para se
cultuar a Senhora do Cabo, Orago dos Saloios que vivem da
terra, mas também daqueles que vivem do rio e do mar.
É assim que nasce a fruição da história hagiográfica da
aparição da Senhora da Mua, que os velhos contavam oralmente
e que depois Frei Agostinho de Santa Maria transpôs
literalmente ao seu "Santuário Mariano" (liv. II, tit. 72),
tendo por personagem central o Nauta irlandês S. BRANDÃO, o
que coloca o Cabo de MU na rota marítima das "Ilhas Perdidas
ou Encantadas" de algum finado e mítico Continente da
ATLÂNTIDA aqui reachado.11 Convém recordá-la:
"(Cerca) de 1215 pouco mais ou menos (...) uma nau em
direitura a Lisboa, no fim de alguns dias estando já na
altura de Lisboa, não longe da costa lhe anoiteceu, e
sobreveio juntamente uma tão terrível tormenta, e com uma
cerração tão obscura que todos se davam por perdidos. A cada
instante julgavam tocar em um baixo ou despedaçar-se a nau
naquela brava costa; porque além de serem (como
estrangeiros) pouco versados nela com a obscuridade da
noite, não sabiam onde estavam, nem ainda que o soubessem,
lhes podia aproveitar pelo desmalado furor dos ventos, e
braveza dos mares, que não deixavam que a nau obedecesse ao
leme. Todos os que vinham nesta nau eram cristãos e
católicos, como o eram então todos os Ingleses e entre eles
vinha um Religioso Eremita de meu Patriarca S. Agostinho
chamado Haildebrant (isto é, Brandão), que devia ser Capelão
da nau, ou de um fidalgo, que também ali
__________
6) Vitor
Manuel Adrião, Os Trilhos da História Sadina. In revista
"Cidades", S. Pedro do Estoril, 1988.
7) João Luís Cardoso, A Lapa do Bugio. In "Setúbal
Arqueológico", V. 9 - 10, pp. 89 - 225, 1992.
8) Manuel Joaquim Gandra, Os Círios ou aspectos da Grande
Deusa na Estremadura. In "Comunicações", publicadas pela
Câmara Municipal de Loures, das Jornadas sobre Cultura
Saloia - 2 e 3 de Dezembro de 1994.
9) Eduardo da Cunha Serrão, Cerâmica proto-histórica da Lapa
do Fumo - Sesimbra - com ornatos coloridos e brunidos. In "Zephyrus",
9, n.º 2, pp. 177- 186, 1958.
10) Miguel Telles Antunes, Dinossáurios Eocretácicos de
Lagosteiros. Lisboa, 1976.
11) W. Scott-Elliot, Lendas de Atlântida e Lemúria. Editora
Madras Ltda., S. Paulo, 2002.
vinha, chamado D. Bartolomeu. Trazia esta bom Religioso
consigo uma Imagem de Nossa Senhora, com que tinha especial
devoção (...) a foi buscar no seu camarote para se
recomendar a ela, e a pedir-lhe que lhe valesse, e a todos
os mais que vinham na nau. Mas não a achou no lugar em que a
trazia (...): começou a dar vozes ao céu para que lhe
valesse naquele grande aperto, em que ele, e todos se
achavam pedindo-lhe valesse: o mesmo fizeram os mais
desamparando o governo da nau, pondo-se de joelhos em oração
e pedindo com lágrimas a Nosso Senhor que lhes acudisse
interpondo o socorro de sua Santíssima Mãe. Eis que de
improviso viram em um alto uma grande luz, que no meio
daquela escura noite lhe alumia a nau e a viram como o
podiam fazer com a luz do Sol em um dia claro. Após isto
sossegaram os mares, abrandaram as ondas e se amansaram os
ventos, quando a nau em Lua tranquila bonança. Entenderam
por estes sinais ser do Céu aquela luz, e aquela maravilha e
assim animados e seguros navegaram para ela, até que
vendo-se junto da costa lançaram ferro e se deixaram estar
surtos até amanhecer o dia dando muitas graças a Deus, que
de tão evidente perigo, os havia livrado. Notaram que a luz
os guiara e o lugar onde aparecera, para que tanto que fosse
claro o dia, irem saber o que aquilo era. Chegou a manhã e
saindo a terra Haildebrant (Brandão) com alguns dos
principais da nau e subindo ao lugar notado, em que tendo
visto a luz, descobriram a mesma Imagem da Rainha dos Anjos
que o Religioso Padre Haildebrant trazia no seu camarote e
que lhe havia falado dela na ocasião da tormenta em que
buscava. Admirados todos de tão grande maravilha e
agradecidos juntamente à Senhora pelo singular benefício que
lhes fizera, não cessavam de dar graças a Deus e também a
sua Mãe Santíssima. Consideravam que o achar-se a Santa
Imagem em aquele lugar milagrosamente era mostrar-lhes que
tinha feito eleição dele, e que ali queria ser venerada, e
assim se resolveram a não a tirar daquele sítio, sendo o
principal voto desta deliberação o do nosso Eremita
Haildebrant (Brandão), de quem era a Santa Imagem. E para
que ficasse decentemente naquele lugar, com esmolas que
juntou dos companheiros, e com licença do Bispo de Lisboa,
lhe edificou boa Ermida em o mesmo lugar, e junto a ela uma
cela, ou aposento para si, e para D. Bartolomeu, que os quis
acompanhar naquela solidão tão áspera (...)."
Desconheço se São Brandão
acaso seja o capitão de mar Sancho Brandão, da mesma época,
pertencente à Marinha de Guerra da Ordem do Templo e que,
segundo Assis Cintra baseado nos escritos do jesuíta Manuel
Fialho, terá chegado numa expedição de reconhecimento à
"Ilha Perdida do Mar do Ocidente", apontada como o Brasil,
notícia comunicada pelo Rei de Portugal ao Papa Clemente VI,
em 12 de Fevereiro de 1343.12 Igualmente desconheço se
Sancho Brandão acaso será São Brandão... Para todos os
efeitos, tem-se a Navegação Sobrenatural como Via Húmida da
Alquimia - Macho/Fêmea, Fohat/Kundalini, Sol/Lua, estes
aliás iconografados dentro da Catedral do Cabo, daí também o
significado da legenda do azulejo junto ao altar-mar: "Ver o
outro sentido além do aparente" -, Arte Magna de Espírito
Santo; e assim igualmente a presença oculta da Ordem do
Templo na feitura da santidade do Cabo Espichel 13, e só
depois a Carmelita.
A publicação em Lisboa em 1707 desse feito miraculoso que o
coloca no Ciclo e no Circuito Hipertúlico ou das Aparições
Miraculares da Virgem, veio corroborar o que antes, em
1409-10, acontecera a uma velha saveira do Monte da Caparica
(a Capa-Rica, tanto quanto aquela que depois se depôs sobre
a Imagem) e a um velho saloio de Alcabideche, vizinho de
Sintra e freguês de Cascais, ambos tido uma visão idêntica:
visto uma brilhante estrela levantada sobre o Mar (Stella
Maris), ao longe, alumiando sobre o Cabo Espichel, lugar que
Nossa Senhora lhes revelara em sonhos, advertindo-os que ali
achariam a sua Imagem, escondida desde há séculos numa fraga
pelo próprio S. Brandão pelo ano de 1215, reinando D. Afonso
II de Portugal, tendo a Virgem acrescentado que os devotos
lhe deveriam prestar culto.14 O romeiro saloio e a velha
caparicana, viriam a encontrar-se, a rumarem ao Cabo, e
depois de aí orarem, fizeram ambos uma ermidinha de alecrim,
arbusto saturnino que vegeta abundantemente no lugar, e
dentro colocaram a pequena imagem da Virgem Negra achada
entre fragas.
Quer isso dizer, descodificando o sentido imediato do
acontecimento maravilhoso e maravilhado, que terá sido por
essa data de 1410 que o Condestável Santo - esse novel "São
Malaquias" da Gesta de Avis, Siva ou do Espírito Santo por
estar sob a chancela do Carmelo, que
___________
12) St.
Brendan's Search for Paradise. In A brief history of the
European Myth of de Garden, Press American Studies at the
University of Virginia, 2001.
13) Maria Clara de Almeida Lucas, A literatura visionária na
Idade Média portuguesa. Biblioteca Breve, vol. 105,
Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Lisboa, 1.ª edição
- 1986.
14) J. Raposo Botelho, Nossa Senhora do Cabo (Resumo
Histórico), pp. 8/9. Sintra, 1928.
em egípcio se diz Espichel, logo tornando este um CARMELO
LUSITANO nesta "Ocidental Ish-Ra-El" aonde confluíram as
três grandes religiões monoteístas afro-mediterrânicas
(Judaísmo, Cristianismo, Islamismo) - começou a
interessar-se pela Fé Popular de Saloios e Saveiros à Virgem
do Cabo, e, com o amplo apoio Popular, acrescido do Real e
do Carmelitano, seria iniciada em 1490 a construção da
Ermida da Memória do "Milagre" de 1215 aí, ou seja, o ano em
que o Culto à Virgem Celeste terá assumido a definitiva
forma Cristã e, possivelmente, largado a primitiva de
feições Arábicas, antes, Moçarábicas.
Ambos esses acontecimentos, crónica hagiográfica posterior
às visões de pessoas anciãs, que é dizer, de juízo formado,
serviram para publicitar o privilégio da "descoberta" do
Santuário eleito pela Senhora, isto é, o seu enquadramento
no Cristianismo, ou melhor, a aceitação e oficialização
pelas autoridades eclesiásticas da Igreja Católica do Culto
Mariano aí levado a efeito pelo Povo desde, quiçá, muito
antes da Nacionalidade, como narra a primeira das três
lendas (duas já estão narradas, a do Nauta S. Brandão e a
dos velhos romeiros de visões comuns) do Cabo Espichel, cuja
origem poderá remontar ao Período Moçárabe, apesar do seu
forte e, quiçá, acrescido sabor Carmelitano. Diz ela:
"Conta a lenda que na venturosa noite em que a Virgem Mãe
deu à luz o Menino Deus, a Serra da Arrábida foi coberta por
um clarão extraordinário, que iluminou por completo o
Promontório Barbárico (Cabo Espichel). Viu-se então uma
enorme nuvem, cheia de resplendores, a qual, como se fora o
Sol no seu declínio, foi cair nas águas revoltas do oceano (Stella
Maris), onde se sumiu (...)."15
Segundo documentação reservada na Biblioteca Nacional de
Lisboa, a oficialização do Círio terá tido início cerca de
1430, "21 anos depois do aparecimento da milagrosa
imagem",16 presume-se por acordo tácito popular, tendo sido
canonicamente organizado com o tempo: a Bula Apostólica
confirmada em 15 de Maio de 1585, aprovada por Provisão do
Cardeal Arcebispo de Lisboa, em 19 de Setembro de 1697,
estabelecia que não se criaria aos romeiros "algum
impedimento em os caminhos ou passagens de mar ou Carreiros,
Almocreves, Barqueiros e mais pessoas que os servirem pelo
Meirinho dos Clérigos ou outras justiças". O ano de 1606
será o da instituição da Confraria de Nossa Senhora do Cabo,
estando o seu compromisso datado de 1672, aquando os "Giros"
já se efectuavam há largo tempo.17 Foi pouco depois dessa
última data que D. Pedro II mandou construir a Catedral de
Santa Maria de Mua, com terreiro (arraial) anexo debruado de
casas sobre arcaria, para alojar os romeiros. Também D. José
I e D. João VI mandaram fazer importantes obras aí.
O Círio Popular dos Saloios à Senhora de MU inclusive
chegou, cerca de 1849 e pela pompa que a Realeza lhe
devotou, a ser chamado de Real Círio dos Saloios, pois a
fama de que goza advém sobretudo da protecção que a Coroa
lhe dispensou. Com efeito, a rainha D. Carlota Joaquina
confeccionou o manto riquíssimo (Caparica - analogia com o
Véu ou Manto de Ísis) que revestiu a Imagem do Santuário,
tendo antes disso o rei D. José I e a rainha D. Maria I
oferecido à Confraria do Cabo a bandeira com a imagem de
Nossa Senhora bordada a ouro, bem como a monarca D. Maria
Pia oferecido, em 1887, a bandeira que os "anjos" usaram no
Círio desse ano.
O Círio Real dos Saloios ainda resplandecia de importância
no último quartel do século XIX, em todas as freguesias do
Termo por onde ele girava. Tal era acompanhado da maior
assistência aos romeiros. É como diz Luís Chaves18: "Hia
antigamente ao Sítio do Cabo no Círio do Termo ou dos
Saloios, hum cirurgião da Caza-Real, por conta do Infantado,
e levava uma Botica ("Farmácia") volante para acudir aos
Romeiros em cazo de necessidade".
Círio é a Vela consagrada pela devoção comum a um Orago
único, no caso Santa Maria qual expressão do Espírito Santo
sobre o Oceano da Vida, tornado votivo e itinerante qual
seja a identificação gradual com o Divino em lugar prévia e
tradicionalmente sagrado. No fundo, o Círio não deixa de ser
Peregrinação, e Peregrinação é sempre, não importa se
consciente ou inconscientemente, uma Iniciação, neste caso,
Iniciação Hipertúlica da etnia Saloia, esta que,
__________
15) J. Raposo Botelho,
ob. cit., pp. 6/7.
16) B.N.L., Memórias, cod. Pombalina 98.
17) Francisco Sousa, O Círio dos Saloios a Nossa Senhora do
Cabo. In Aspectos Religiosos e Profanos das Festas Populares
em Loures, Museu Municipal de Loures, 1993.
18) Luís Chaves, O Archeologo Portuguez, 21, 70 - 1916.
acaso, não se gosta à primeira, vai-se aprendendo a
gostar... Hoje mesmo ela é a nata do Povo, simples e rude,
mas sincero e bom, sempre acreditando nas boas intenções de
"seus senhores", esses "mandantes lá de Lixbôa" que,
desgraçadamente, acabam esquecendo a palavra dada com
muitíssima mais facilidade que a capacidade de hoje separar
o rural do citadino. De maneira que ambos sofrem na mesma
medida!...
O Giro do Círio à Senhora da Pedra de Mua tinha como cabeça
dele a Freguesia de Belas, onde os procuradores se reuniam
impreterivelmente a 25 de Março de cada ano para prestar
contas e realizar eleições para os novos cargos. O prior de
Belas era o juiz executor e o de Barcarena o seu tesoureiro
perpétuo. Inicialmente o Giro compunha-se de 30 Freguesias
do Termo dos Saloios, mas após o 10.º Giro 4 delas
resolveram abandoná-lo: Bucelas (1709), Unhos (1711),
Arranhó (1716) e Mafra (1722), ficando as restantes 26,
número que se mantém até hoje.19 Vejamos a sua ordenação:
1 - S. Vicente de Alcabideche
2 - S. Romão de Carnaxide
3 - S. Julião do Tojalinho
4 - S. Pedro de Penaferrim de Sintra
5 - Nossa Senhora da Misericórdia de Belas
6 - Santa Maria de Loures
7 - S. Lourenço de Carnide
8 - Nossa Senhora da Purificação de Bucelas
9 - S. Pedro de Barcarena
10 - S. Pedro de Lousa
11 - S. Silvestre de Unhos
12 - Santo Antão do Tojal
13 - Nossa Senhora da Purificação de Oeiras
14 - Nossa Senhora do Amparo de Benfica
15 - S. Domingos de Rana
16 - S. João das Lampas
17 - S. Lourenço de Arranhó
18 - Nossa Senhora da Purificação de Montelavar
19 - Nossa Senhora de Belém de Rio de Mouro
20 - Nossa Senhora da Ajuda de Belém
21 - Ascensão e Ressurreição de Cascais
22 - Santíssimo Nome de Jesus de Odivelas
23 - S. Martinho de Sintra
24 - Santo André de Mafra
25 - S. Pedro de Almargem do Bispo
26 - Santo Estevão das Galés
27 - Nossa Senhora da Conceição da Igreja Nova
28 - S. João Degolado da Terrugem
29 - S. Saturnino de Fanhões
30 - Santa Maria e S. Miguel de Sintra
Nos primeiros tempos do Círio, a passagem de testemunho de
uma Freguesia do Giro a outra, era feita no próprio
Santuário do Cabo e concretizada através da entrega da
bandeira da Confraria pelo juiz da Freguesia que sai ao juiz
da Freguesia que entra. Saliente-se que, tendo em conta o
número de Freguesias participantes no Giro (26), cada uma
delas só festeja a Senhora do Cabo de 26 em 26 anos. No ano
de 1751 foi essa bandeira substituída por uma imagem da
Virgem feita à semelhança da original - que nunca saiu do
Santuário - e que a partir dessa data começou a acompanhar
os Círios.
Inicialmente a procissão do Círio organizava-se segundo uma
coreografia de cortejo, que abria com um friso de anjos,
seguindo-se a música e os carros enfeitados transportando os
romeiros - o que se ajustava a um ludismo que, situado na
transição do popular folclórico para o ritmo sagrado,
orientava a função colectiva para os Mistérios Iniciáticos.
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19) Vitor Manuel Adrião,
Introdução à Portugalidade. Academia de Letras e Artes,
Cascais, 2002.
Em 1893 e devido à pouca afluência de romeiros ao Cabo, foi
necessário tomar novo compromisso, onde se consignou que os
festeiros se limitariam a levar a Imagem peregrina de
Freguesia em Freguesia sem deslocação ao Cabo Espichel, e só
quando chegasse a vez da última Freguesia do Giro - St.ª
Maria e S. Miguel de Sintra - todas elas iriam em procissão
ao Santuário de Mua e aí seria entregue a Imagem aos
festeiros da primeira Freguesia - Alcabideche -, recomeçando
assim um novo Ciclo ou Giro - o que se enquadra naquele
princípio teosófico do Terceiro Logos Criador das Rondas e
Cadeias dos Planos de Matéria e peregrinando por elas,
evoluindo e fazendo evoluir os seus seres viventes. O facto
é que, desde essa data a Imagem peregrina nunca mais voltou
ao Cabo, verificando-se assim uma adulteração do ritual
primitivo, por ela passar directamente de Freguesia para
Freguesia, após 26 anos de ausência. Foi também nessa altura
que se perdeu o hábito dos procuradores dos vários Círios se
reunirem em Belas, no já referido dia 25 de Março de cada
ano, para aí serem prestadas as contas.
Em 1910 e logo a seguir à promulgação da lei separativa do
Estado e da Igreja, foi assaltada a igreja-matriz de
Alcabideche onde se encontrava a Imagem, provocando-lhe
vários danos. A este facto sucedeu um interregno de 15 anos
nos festejos a Nossa Senhora do Cabo, que recomeçaram em
1926, tendo sido Odivelas a primeira Freguesia a reclamar a
Imagem tomando a iniciativa de a ir buscar à Ressurreição de
Cascais, para onde fora recolhida do vendaval carbonário ou
jacobino,20 tanto valendo por um executar o que o outro
ordenava, e assim o Círio do Santíssimo de Odivelas suscitar
a retoma do Giro.
Depois disso as romarias continuaram, mas já destituídas da
grande pompa que detinham outrora, até que foram uma vez
mais interrompidas, desde 1976 a 1979.
Até finais do século XIX o Círio durava cinco dias.21 Saía
da Freguesia que tinha a Imagem da Senhora na terça-feira
que antecedia a Ascensão (40 dias após a Páscoa:
quinta-feira da Ascensão ou da Espiga), indo depositar a
Imagem na Capela de Nossa Senhora das Dores, em Belém. No
dia seguinte atravessava o Tejo, enquanto as fortalezas
davam salvas de 21 tiros, desembarcando de galeotas e
bergantins da Casa Real em Porto Brandão (que herda o nome
do Santo da lenda descrita pelo supradito Frei Agostinho de
Santa Maria).
Uma vez em terra, o cortejo reorganizava-se, fazendo paragem
na Capela de Nossa Senhora do Bom Sucesso. Daí seguia para a
Ermida de Nossa Senhora do Cabo na Banática e para a
homónima da Caparica (Quinta da Piedade de Domingos da Costa
e Almeida, antiga propriedade de meus familiares), seguindo
para o Cabo Espichel pela beira-mar, ao longo do areal. Os
romeiros costumavam chegar ao Cabo na véspera da Ascensão,
entrando o cortejo no terreiro e dando três voltas a este,
antes de se dirigir para o interior do Santuário.
Os festejos iniciavam-se nessa quinta-feira, dia consagrado,
com missa de Requiem, aos festeiros falecidos. No sábado
havia solenidade consagrada a S. Joaquim (aludido pai da
Virgem Maria) e no domingo acontecia a festa que faziam os
que entregavam a imagem de Nossa Senhora. Nesse dia, à
tarde, realizava-se a procissão, na qual se incorporavam os
festeiros dessa Freguesia e da que ali a iam receber.
Seguia-se-lhe a entrega da bandeira, no interior do
Santuário, com Te Deum, Ladainha e Sermão. Os festeiros que
entregavam, mais o respectivo prior, o juiz com a bandeira e
três anjos todos se colocavam do lado direito do altar-mor,
e os que recebiam do lado esquerdo. O Mestre de Cerimónias,
que era o prior do Santuário, tirava a capa de
asperges dos ombros do prior da Freguesia que entregava,
pondo-a nos do que acompanhava a que recebia. Ao entregarem
o Círio os festeiros passavam todos para o lado esquerdo do
altar. Concretizada a entrega era-lhes oferecido um copo de
água (tradição que teve início, segundo Ribeiro Guimarães,22
apenas em 1752), ao qual sucedia a entrega das alfaias,
lavrando-se acta do sucedido, assinada por todos os
presentes. Conservavam-se os festeiros no local até a
segunda-feira seguinte, dia em que ocorria o regresso.
Depois da travessia do Tejo para Belém iniciava-se a
caminhada para o respectivo destino, para a Freguesia de
eleição do Giro. Abria uma força de Cavalaria, de imediato o
carro do Fogo, seguido pelos juízes com a bandeira e
acompanhantes, mais os ternos de chamarelas e três anjos
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20) Vitor Manuel Adrião,
Dogma e Ritual da Igreja e da Maçonaria. Dinapress Editores,
Lisboa, Setembro de 2002.
21) Manuel Joaquim Gandra, ob. cit.
22) Ribeiro Guimarães, Summario de Varia Historia. Lisboa,
1872.
a cavalo, vestidos de soldados romanos. A Imagem peregrina
era conduzida na sua berlinda puxada a duas parelhas,
ladeadas por doze devotos com as tochas acesas. Após ela os
carros triunfal dos anjos das loas, do padre, dos
procuradores, uma galera que levava a música e o
habitualmente longo cortejo com a multidão dos festeiros.23
Houveram oito Freguesias que não foram abrangidas pelo
compromisso Seiscentista,24 as quais organizaram os seus
próprios Círios a Nossa Senhora do Cabo Espichel: Lisboa
(terceiro domingo após o Espírito Santo), Seixal e Arrentela
(2.ª oitava do Espírito Santo), Almada (domingo da
Trindade), Palmela (15 de Agosto), Azeitão e Sesimbra
(primeiro domingo de Setembro). Os Círios organizados na
Costa da Caparica possuíam uma organização semelhante à do
Giro das Freguesias do Termo de Lisboa. A Freguesia era
dividida em 4 Varas: 1.ª - Monte da Caparica (onde vivi nove
meses e fiz a 1.ª classe da primária escolar, cuja igreja da
Capa Rica guarda, como quer a lenda, um tesouro, encobrindo
igualmente o segredo que lhe dá acesso - são observáveis
dois retábulos azulejares os quais, significativamente, têm
por tema o Dilúvio Universal) e Porto da Caparica (Porto
Brandão, onde, também infante, ia morrendo afogado e sem
ninguém próximo para dar a mão de socorro, contudo "força
misteriosa" ou "mão de anjo caritativo" empurrou-me para
terra seca. São coisas que não se esquecem...); 2.ª -
Trafaria; 3.ª - Costa da Caparica; 4.ª - Sobreda, as quais
se revezavam anualmente na organização do Círio e na
manutenção da bandeira numa ermida própria até à festa
seguinte.25
Hoje, tudo mudou e muito. Os usos e costumes, sem dúvida. A
Fé, acaso não. Como também não as Freguesias do Giro, e
assim também o Santuário do Círio do Termo dos Saloios.26
Ele lá está, solitário e solene, debruado sobre o Mar
Atlântico lavrando as escarpas de MU.27 Nada falta, em
remate final, para devolver à Solenidade Litúrgica a pompa
mais que justificada merecida de outrora, não faz muito
tempo, e que era prova tamanha da unidade social portuguesa
reunida em torno de uma única Fé, de uma única Mãe: Santa
Maria dos Saloios, de Espichel, de todo o Portugal que é
dele este dia.28
Honra e Glória, pois, à Pátria Amada que nos é berço,
Portugal, e a todos quantos, no rolar dos séculos idos,
votando nos do Porvir, fizeram as suas Grandezas que tão bem
e imortalmente a Musa de Camões soube cantar cujo eco abrasa
o coração e empolga a mente. Portugal das Armas, Portugal da
Fé, Portugal das Letras, Portugal do Povo que não tem casta
e que é todo o Português no Mundo da nossa Diáspora. Morrer
a Ideia e a Pátria, jamais! Transformar e Evoluir a Ideia e
a Pátria, sempre!
Com esta Oração, tenho dito.
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23) Olegário Paz, Loas a
Nossa Senhora. In "Jornal de Sintra", 12 de Setembro de
1986. Pinharanda Gomes, O Carmo em Loures. Comunidade
Paroquial de Santo António dos Cavaleiros, Loures - 1979. O
Trabalho e as Tradições Religiosas no Distrito de Lisboa,
Exposição de Etnografia, Governo Civil de Lisboa - 1991.
24) Frei Cláudio da Conceição, Memórias Prodigiosas de Nossa
Senhora do Cabo, Lisboa, 1817.
25) Conde dos Arcos, Caparica através dos séculos. Cacilhas,
1974.
26) Diogo Francisco de Piedade e Costa, História de Nossa
Senhora do Cabo. Lisboa, 1899.
27) Frei Agostinho de Santa Maria, Santuário Mariano, t. 2,
liv. II, tit. 34, pp. 348 - 353. Lisboa, 1707.
28) Tanto o Círio à Virgem Negra de Mu - secundado pelo
outro à Virgem Negra da Nazaré, cristianizados ambos por
possível influência da Ordem do Templo - como a Festa
Popular do Império do Divino Espírito Santo, celebrações
Molhada e Seca, Costeira ou Marítima e Interior ou
Campestre, não raro esta assumindo aquela, e vice-versa,
assim justificando o aparelhamento de "Sol e Lua" adiante de
Terris et Maris Nostrum, com efeito não deixam de
correlacionar-se à influência solene e suprema, num misto de
velada e patente, da Soberana ORDEM DE MARIZ em todo o
Portugal, em toda a Portugalidade, que é dizer em todo o
Mundo de expressão Portuguesa do qual é a mais bela Jóia o
BRASIL bojo do Futuro da Humanidade.
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