|
Dr. Vitor Manuel Adrião
Calcorreando as ruas da velha Loures, vendo aqui e ali este
e aquele casario típico da Estremadura, apercebemos nas suas
nuances e comparando-as às descrições de crónicas e
fotografias de há 100 anos atrás, como seria então a
paisagem do Termo.
Casas chãs aglomeradas formando curtas ruas calcetadas, ou
de terra batida que era o mais usual; casario isolado em
meio de hortas e quintedos onde, destacado ou discreto, o
solar apalaçado dum nobre ou o convento exíguo de alguma
freiria de vocação ermitã abrilhantavam ainda mais o já de
si soberbo quadro rural lourenho, cujo tipicismo peculiar ou
singular é hoje lembrado pelos mais idosos com nostalgia e
saudade.
Tal quadro rural de Loures não será muito diferente do da
Sintra Saloia de há não muitos anos atrás, como descreve
Vitor Serrão (in Sintra (os aglomerados saloios). Editorial
Presença, 1.ª edição, Lisboa, 1989):
«A chamada Região dos Saloios – a região que integra os
limites cistaganos do Município Olisiponense, ou seja, o
território da península de Lisboa, cingido a norte pelos
actuais concelhos de torres Vedras e de Alenquer – tem no
concelho de Sintra uma das suas zonas mais interessantes sob
o ponto de vista de genuíno património edificado. São vários
os núcleos que subsistem, com maior ou menor grau de
integridade, característicos da arquitectura dos «saloios»,
isto é, autóctones moçárabes, herdeiros da cultura
hispano-romana florescente nos agrido Município
Olisiponense: são eles, entre outros, o casal de
A-dos-Rolhados (freguesia de Algueirão), a aldeia de Broas –
nos limites confluentes do concelho com o de Mafra –, o
casal de Bolelas e, apesar das contaminações abusivas
provocadas pelo urbanismo desordenado e sem critério, as
aldeias de S. João das Lampas, Barreira, Cabrela, Azóia,
Penedo, Ulgueira, e outras.
«A construção saloia, habitualmente com o seu lagar, fornos,
adega, estábulos e curral, com as suas típicas coberturas de
quatro águas, um peculiar sistema de aberturas, etc.,
reflecte sobretudo a actividade agrícola do homem saloio,
que continua como os seus antepassados a ser o çahroi da
época muçulmana, isto é, o trabalhador do campo.»
Sendo o saloio descendente do moçárabe, será da cultura
arábica que herda muitos dos seus usos e costumes, inclusive
a arquitectura, como se nota nas formas e proporções daquele
que é o seu tecto habitual. Sobre isto, diz Maria Micaela
Soares (in A Mudança na Cultura Saloia. Artigo inserto em
Loures, Tradição e Mudança, vol. I, pág. 170. Loures, 1986):
«Imprimia o Saloio à sua habitação a robustez física e de
carácter que o individualizaram. Sendo evidente que a casa
saloia se insere no tipo de casa tradicional do Sul do País,
ela possui um quê distintivo que logo a singulariza na
Estremadura.»
Tal singularidade tem base ou raiz sagrada que, para ser
compreendida devidamente, ter-se-á de recorrer à intenção
do sentido da arquitectura árabe, distendendo-se do Algarve
à Estremadura, passando os Alentejos (vd. Casas Portuguesas
(Alguns apontamentos sobre o arquitecturar das Casas
Simples), por Raul Lino. Lisboa, 1933).
Apesar deste ou aquele excesso destoante, a casa saloia, tal
como a árabe, assentou originalmente sobre a raiz quadrada
de dois (√2), portanto sobre uma planta quadrada, tendo a
primeira no seu centro a casa de fora, ou da entrada, por
onde se acedia às restantes divisões, enquanto a segunda
fechava-se em torno de um claustro quadrado encerrando no
seu centro um jardim ou uma fonte, ou ambas as coisas:
tratava-se do universo fechado em quatro dimensões (centro,
comprimento, largura, altura), e cujo jardim central,
proibido a estranhos à casa, era uma evocação do “Jardim
Proibido” do Éden, aberto exclusivamente à influência
celeste (in Dicionário de Símbolos, por Jean Chevalier e
Alain Gheerbrant. Paris, 1906).
Para Abu Ya´qûb, o quaternário era o número perfeito: o da
inteligência e o do nome divino, ALLH. Não há, pois,
diferenças marcantes entre o significado atribuído às
construções de planta quadrada, no Ocidente e no Mundo
Islâmico (cf. Arquitectura Alentejana: o Quadrado, por Jaime
Manuel Sousa. In O Estudo da História, Boletim dos Sócios da
Associação dos Professores de História, n.º 5-6 (II Série),
1988).
Na cidade islâmica o elemento base é a casa, não a rua. A
casa, como a mesquita e a madrasa, é um local sagrado, como
diz acertadamente Hélder Manuel Ribeiro Coutinho (in
Al-Usbuna – a Lisboa Muçulmana. Revista História, n.º 96,
Outubro de 1986). Afirma o Al-Corão, cap. XLIX: «O
interior da tua casa é um santuário: os que o violam
chamando-te, quando estás nela, faltam ao respeito que devem
ao intérprete do Céu. Devem esperar que saias de lá: a
decência o exige».
Sendo a casa a imagem do homem, de seu morador e dono, vimos
na Idade Média a combinação das proporções, a unidade de
medida ser determinada a partir das dimensões da figura
humana, e geometricamente representada pelo quadrado,
aplicando-se frequentemente na arquitectura do Renascimento,
ainda que durante o Gótico fosse comum o uso de um sistema
de proporções inteiramente derivado do quadrado (ad
quadratum), no traçado de plantas de catedrais. Esta
concepção foi traduzida na célebre imagem de Leonardo da
Vinci, onde o Homem, como Microcosmos, aparece inscrito num
círculo e num quadrado. A largura dos seus braços estendidos
é igual à altura do tronco e pernas unidas, formando
portanto uma cruz (o quaternário), e corresponde à medida do
lado do quadrado. Considerado o centro do Universo, segundo
Pico de Mirandola, e elo de ligação entre Deus (o círculo
celeste) e o Mundo (o quadrado dos quatro elementos da
natureza), através do Homem, cuja individualidade está
impressa na robustez, humilde ou rica, de sua casa, se
concretiza a quadratura do círculo, problema geométrico
designativo da ascese mística, corrente entre os
neo-platónicos, permissor da elevação do homem racional à
esfera divina.
Por princípio a casa saloia é térrea, chã, encrostando-se no
chão como que arrancando a este a seiva telúrica dos veios
da Terra, e ao mesmo tempo como que se ocultando das
influências funestas da Lua: o saloio é um homem do dia, não
da noite. Madruga com os animais e as plantas, não é
noctívago e dorme encostado ao seio da Grande Mãe Atégina, a
Deusa da Terra, das semeaduras e colheitas, enfim, da
Agricultura.
Geralmente o saloio, mesmo o abonado, não comprava casa para
sua moradia: fazia-a ele mesmo, e por isso as aldeias
progrediam aumentando permanentemente os seus fogos (in O
Saloio de A a Z, por Maria Isabel Ribeiro. Boletim
Cultural´93, edição da Câmara Municipal de Mafra).
A casa saloia quase nunca se limitava a dois compartimentos.
Geralmente tinha três divisões: cozinha, casa de fora e
alcova. Outras, quatro; e outras, seis divisões, segundo
João Paulo Freire (in O Saloio: sua origem e seu carácter:
fisiologia, psicologia, etnografia. Porto, 1948). Raramente
havia casas de banho. E a azoteia árabe ou mourisca foi
sistematicamente substituída pelo terraço alpendrado,
característico do casal saloio.
Exemplares de casas saloias, carecendo de restauro urgente,
fotografadas em 19 de Agosto de 2001, na Póvoa de Santo
Adrião (Odivelas) e na Flamenga (Loures). – Fotos de
António Tavares.
O saloio defendia-se sempre, na sua habitação, das nortadas.
Para o lado do norte, a casa geralmente não tinha janelas.
Na arribana as teias de aranha eram mantidas, porque “fazia
mal tirá-las”, e para aconchego do gado. Dava-lhes uma
quentura especial que beneficiava o ambiente. O água-vai do
saloio, era o indispensável condimento para que o mato se
transformasse em estrume, que era uma das grandes riquezas
do pequeno lavrador saloio. Ele não perdia pitada do
água-vai, e o mato que o recebia, apodrecia e ganhava aquela
fortaleza que o tornava o melhor e o mais barato dos adubos.
A casa era geralmente caiada de branco e a telha tradicional
era a mourisca, em telhado mourisco de duas águas. As mais
evoluídas apresentavam quatro e desenvolviam-se em dois
pisos.
A principal distinção que pode fazer-se é entre a morada
cujos habitantes eram de lida ou à jorna. No primeiro caso,
existiam anexos – palhêros ou abogoarias – para acomodação
do gado e alfaias; no segundo, somente as divisões
destinadas a habitação.
Os saloios mais folgados, com maior pé de meia, tinham casas
maiores, com o rés do chão lajeado e uma escada exterior
para o sobrado, onde estavam os quartos para toda a família.
A porta tinha um alpendre formado de três lajes e lambris
pintados de azul ou vermelho. Assim a casa passava a ter
dois pisos corridos: o térreo – as lojas – como arrecadação
de aprestos de lavoura, abogoaria, etc., e o andar nobre
como local de habitação (cf. Benfica Através dos Tempos, por
Padre Álvaro Proença. Lisboa, 1964).
Mas há outro motivo de grande beleza nos solares saloios: o
portão do pátio. O frontão que o encima geralmente revela
apurado sentido estético, com o seu fino recorte, ladeado
por volutas de cal e areia, terminando por elegante
pináculo. Tais ornamentos são milagres de alvenaria. Não é
raro que enquadrem painel de azulejos com Nossa Senhora ou
São Marçal, este para livrar a casa de ladrões e incêndios,
ou ainda Santo António, santo brejeiro e meio pagão na
crença popular.
As casas e solares saloios, testemunhos da vivência humana e
sagrada do “homem do campo”, ainda hoje e mesmo que
rareando, são património a preservar e divulgar, nisto, no
que nos toca como concelhio, pelos devidos órgãos dos
Municípios de Loures e Odivelas, a bem da Cultura
Patrimonial deste belíssimo pedaço do Termo dos Saloios.
________
Proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos
apresentados, sem licença do autor.
|